18 de julho de 2005

Estado do Sítio

O enterro dos socialismos



Este sítio não está só muito mal frequentado como avança alegre e rapidamente para a falência. Algumas elites, as poucas que ainda vão existindo por estas terras, romperam com anos e anos de silêncios e cumplicidades e desataram a dizer umas tantas verdades que a maioria atira para debaixo do tapete o mais depressa possível, não vá o Diabo tecê-las e acabar com os arranjinhos políticos, económicos e sociais que transformaram este regime num colossal embuste.

João Salgueiro, uma figura insuspeita de não gostar do pântano nacional, afirma que o País é inviável há duas décadas. Fernando Ulrich, um respeitável banqueiro longe dos populismos de esquerda ou direita, diz que o modelo português ao nível político, económico e social não serve. Ou seja, o regime está podre e não se recomenda a ninguém. E para que não haja quaisquer dúvidas sobre o estado a que este sítio muito mal frequentado chegou, veio o ministro das Finanças do Governo socialista de José Sócrates dizer aos perplexos cidadãos que os investimentos públicos anunciados com muita pompa e circunstância no Centro Cultural de Belém, uma obra emblemática do cavaquismo e de como se gastam milhões a mais em Portugal, são um embuste tremendo. Campos e Cunha, numa forma muito original de vir a público dizer que está farto de ser ministro das Finanças, tem imensa razão quando escreve que hoje viveríamos melhor se certos investimentos não tivessem sido realizados.


O sítio está, portanto, a chegar a um beco sem saída. As elites já falam verdade e um ministro de Estado há quatro meses em funções prepara-se para voltar à universidade. Entretanto, a economia afunda-se, as despesas públicas disparam, o desemprego sobe e o povo, bem acompanhado pelo supremo magistrado da Nação, nem quer ouvir falar em crise. Uns vão para a praia e outros organizam greves, marchas e marchinhas na defesa de direitos irresponsavelmente concedidos por um Estado que já era inviável há duas décadas. Mas como em muitas situações na vida, há males que até vêm por bem.


Com um país falido, um regime moribundo, um povo cada vez mais velho e iletrado, começa a chegar a hora de se pôr tudo em causa. A começar pela arqueológica Constituição da República, um verdadeiro obstáculo às reformas, à modernidade e ao desenvolvimento. Mas como o Bloco Central do pantanal está verdadeiramente decidido a enterrar Portugal, importa obrigá--lo, pelas força das palavras, a referendar um texto fundamental que seja a primeira pedra de um novo regime. E de um novo modelo político, económico e social que enterre de vez os socialismos. Todos.



António Ribeiro Ferreira, in Diário de Notícias 18 de Julho de 2005

2 comentários:

José Mª Pote de Azeredo disse...

Quando algo não corre como se espera, devemos procurar o defeito e corrigi-lo.
Pois em Portugal o defeito já foi localizado, identificado, catalogado e até estudado, mas o país continua à espera de quem o corrija, qual mito sebastianico que tarda em aparecer.
Mais que um problema constitucional, o país atravessa um dilema ético, onde todos os dias se constata a inexistência de qualquer ética repúblicana (se alguma vez a houve) e onde quase todos aqueles que democraticamente se responsabilizaram pela condução do aparelho de estado parecem incapazes de encontrar o norte. A República Portuguesa saída da revolução de 1974 aproxima-se perigosamente do fim da linha, sem que ninguém consiga mudar a agulha para trocar de linha.

Gonçalo Rosas disse...

É realmente deprimente. É preciso de facto uma nova educação e cultura. Existem demasiados bloqueios para que a sociedade trabalhe para ela própria, como comunidade. Disse no iuris que vivemos na aristocracia da informação, ou seja, vivemos numa sociedade cheia de nevoeiros em que pouco sabemos do que realmente se passa. E depois teimamos em estar quietos quando só quem se mexe triunfa....enfim...